Dalai Lama, com o pesquisador e autor Thupten Jinpa
O que não é auto-compaixão
Auto-compaixão e tipos de ligação
- ansiosa e preocupada
- de recusa e fuga
- temerosa e de fuga

Dalai Lama, com o pesquisador e autor Thupten Jinpa

Abaixo dois textos - um pessoal e outro retirado de um trecho da revista Vida Simples - onde podemos observar como o sofrimento tem relação com a falta de redes de apoio, de recursos sociais e amparo afetivo. Inclusive este tema é o estudo focado da Psicologia sócio-histórica com base na abordagem do psicólogo Lev Vygotsky (1896-1934), que acreditava na constituição do comportamento biológico humano em relação ao meio no qual estamos inseridos.
Sabe aquela cena do filme Dormindo com o Inimigo quando a personagem, interpretada pela Julia Roberts, está organizando a casa nova? Sem se dar conta, arruma tudo simetricamente no armário - como tinha que fazer no casamento abusivo - e quando se dá conta do que faz, entorta as toalhas e dá uma bagunçadinha geral.
Quem pouco conhece sobre óleos essenciais, acaba tendo uma visão restrita, quando não incompreensível do filme O Perfume.
Convido a esta instigante viagem sensorial, com trechos desta maravilha literária do alemão Patrick Süskind.
por Milene Cristine Siqueira
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O Perfume mostra a fixação do personagem Jean-Baptiste Grenouille em conseguir - à primeira vista - identidade, amor e domínio. Mas não era qualquer domínio, nem qualquer identidade, nem qualquer amor...
Grenouille entusiasma-se com esse objetivo ao sentir o aroma de uma jovem ruiva, aquela a quem entre tantos cheiros, ele - com sua capacidade olfativa singular -reconhece ser o aroma da Perfeição:
“...Este perfume tinha frescura; não era, porém, a frescura
das limas ou das laranjas, a frescura da mirra ou da folha de canela, ou da
hortelã, ou das bétulas, ou da cânfora, ou das agulhas de pinheiro, nem a de
uma chuva de Maio, de um vento gelado ou da água de uma nascente... e continha
simultaneamente calor; mas não um calor semelhante ao da bergamota, do cipreste
ou do musgo, nem ao do jasmim ou do narciso, nem ao de um bosque de rosas ou de
íris... Este perfume era uma mistura de ambos, do que passa e do que pesa; não
uma mistura, mas uma unidade, e, além disso, humilde e fraco, e, no entanto,
robusto e resistente como um pedaço de seda fina e brilhante... e, todavia, não
como a seda, mas antes como o leite com mel onde se molha um biscoito, o que
nem com a melhor das boas vontades se conjugava:leite e seda! Incompreensível
este perfume, indescritível, impossível de classificar! Não deveria, na
realidade, existir. E, no entanto, ali estava com a mais absoluta das
obviedades...” (*1)
Eu li o livro em 1995, e a cena grotesca do nascimento de Grenouille sob a mesa de limpar peixes na Paris de 1738, era tão vívida em minha lembrança tal qual o filme mostrou, quando o assisti em 2007.
A cena do nascimento deve ser proposital, pois é fato de que
o corpo humano em excitação sexual exale um odor similar ao de peixes e
mariscos. Grenouille será o primeiro dos outros quatro filhos nascidos na mesma
situação que irá nesse ambiente podre e fétido - em meio ao lixo e peixes em
decomposição - jogado na sombra e no cheiro da vida que fenece, sobreviver.
Nesse ambiente onde se mesclam o cheiro da fertilidade e da
morte, Grenouille nasce com uma capacidade olfatória singular e a usará como o
usa um animal predador, ou menos, pois Süskind o compara a um... carrapato.
Grenouille ainda irá sobreviver em vários episódios narrados no livro. “...Tinha a resistência de uma bactéria” - o que justifica a aparência de frágil, manco, com cicatrizes e escoriações que apresenta o personagem no filme.
Grenouille tem um olfato incomum, mas não possui cheiro!
Para os personagens que faz contato, deixa sempre um rastro
destrutivo“...devorava tudo, absolutamente tudo e absorvia tudo”.
Uma pena que no filme não se conte a história de Madame
Gaillard, do padre Terrier, nem das amas que o rejeitam, pois “ ...ele
suga-lhes até os ossos...” , do fato incomôdo de que Grenouille causa à todas
as pessoas que são invadidas (cheiradas) em suas emoções mais profundas. Da
estranheza que causa, afinal não é possível 'cheirar' quem é Grenouille.
Até que finalmente encontra Madame Gaillard com seu nariz
torto:
E assim, lhe é aceitável em seu orfanato, até que mais tarde Madame Gaillard começa a notar em Grenouille diversos poderes “...sobrenaturais”, como saber (cheirar) quando as pessoas estão chegando. Até o medo maior de que ele também descubra seu dinheiro guardado, e assim trata de livrar-se dele.
É fato que a primeira vez que assisti ao filme, não notei alguns detalhes, nossos olhos acabam ficando receosos, sobretudo dos assassinatos. Tem muitas cenas escuras, pois além da época, a claridade dá o contraste – como morte e vida - a luz revela os belos campos de lavanda ou o verde das montanhas.
Há uma cena memorável do perfumista Baldini, interpretado por Dustin Hoffman, que viaja no atemporal em cores, leveza, amor e frescor ao sentir um perfume elaborado por Grenouille.
Grenouille só irá perceber que não cheira a nada bem mais tarde, quando se retira nas montanhas, lá onde até então pensara ser feliz, no lugar onde não haviam comparações...
Numa cena do filme, Grenouille passa por cães de guarda, que dormem, sem ser de forma alguma notado – aparecendo mais nitidamente aos nossos olhos como se sente: um fantasma.
Não é contado no filme, mas a primeira possibilidade de
Grenouille ser notado é quando formula para si um perfume com cheiro humano, o
cheiro superficial, mas o suficiente para enganar as pessoas – consegue ser
“visto”! Inclusive, Grenouille usando desse artifício melhora sua postura
corporal.
Só que a partir daí... Grenouille tem uma ideia que lhe
faria mais do que um igual...
Em Grasse, de posse das essências (almas) das jovens, Grenouille finalmente irá elaborar “O Perfume” na cena mais surpreendente do filme.
A cena na Place dus Cours onde seria executado, que vista sem entendimento irá parecer completamente desprovida de sentido - como nada além de uma grande orgia - é o contexto aqui descrito:
Grenouille revestido de toda aura aromática de apenas uma gota do “Perfume”, transmuta-se para as pessoas em Anjo ou na personificação do melhor que elas crêem. Diferentemente do que parece, as pessoas não se desnudam com o olhar da moralidade com o qual podemos assistir. O “Perfume” é a descrição da primeira jovem (*1), o aroma da união dos opostos, da totalidade, da Unidade!
As pessoas entram no seu paraíso pessoal, numa nuvem
espiritual que toma todo o ar, só há a embriaguez do êxtase para respirar... da
liberdade, da alegria, da inocência.
E desprovidos de qualquer razão, e portanto dos preconceitos, do julgamento, do Bem e do Mal, de um passado e de um futuro, transcendem como podem, profano e sagrado são um só, buscando através dos seus corpos também ser Um - inebriados dão-se, acolhem-se, fundem-se. É a alegoria de um arrebatamento indescritível, à semelhança dos aromas mais sutis na natureza, que são pura onda de energia vital/sexual!
O pai de Laure, Richis, vê a legitimidade em essência de sua filha, aromaticamente vestido em Grenouille.
Grenouille num primeiro momento comemora seu feito, ri, vive o grande triunfo. Mas não demora muito para ir do êxito ao fracasso, cair em si e derramar uma gota de lágrima. Proporcionara às pessoas a embriaguez do Amor, mas ele, Grenouille, começa a se sentir mal, sufocado da falta de si mesmo.
Frustrado, começa uma caminhada de volta à Paris. Com o
Perfume no bolso, sabe que detém de um poder que lhe pode proporcionar qualquer
coisa, pois faz as pessoas amarem. Mas já nada importa, pois sabe que com toda
riqueza e todo poder que poderia ter, nada disso lhe faria ter seu próprio
cheiro e então ser alguém, e mais que ser alguém para os outros, agora percebera
o mais importante “...não podia cheirar
a si mesmo e, por isso, jamais saberia quem ele era”.
E constata sobre o Perfume, e seu próprio paradoxo “...o único que alguma vez o reconheceu em sua verdadeira beleza fui eu, porque eu mesmo o fiz. E ao mesmo tempo sou o único a quem ele não pode fascinar, não pode deixar fora de si. Sou o único para quem não tem sentido.”
Quando Grenouille relembra a cena da praça, pensa: “...As pessoas, no entanto, acreditavam que desejavam a mim, e o que elas realmente desejavam permaneceu um segredo para elas.”
Grenouille chega à Paris, ao mesmo local do seu nascimento, ao mesmo cheiro.
Mistura-se ao redor de uma fogueira - como sempre sem ser notado - entre os ladrões, prostitutas, assassinos, desesperados, famintos. E ali derrama em si todo o conteúdo que carregava do “Perfume”, e após um momento de maravilhamento das pessoas, é por elas devorado.
Grenouille atira contra ele a arma mais poderosa que tinha em mãos, o Amor.
Saindo de Grasse, Grenouille havia decidido morrer. Já tinha experimentado viver com as pessoas e se refugiado delas, e nem uma ou outra ideia lhe agradava. E sua decepção o fez saber que o reconhecimento desejado era uma ilusão.
Caira na própria armadilha, o “Perfume” na Place dus Cours
também distinguira o que havia de mais profundo no coração de Grenouille...
Grenouille descobrira que o amor das outras pessoas não lhe trazia satisfação, não só porque não era atribuído para ele próprio, mas porque não amava as pessoas, e a satisfação do amor, é amar! A possibilidade de sua sobrevivência sempre fora na ausência do amor. Conclui que o sentimento que o mantém é unicamente o ódio.
“...Uma vez, uma única vez, queria ser considerado em sua
verdadeira existência e receber de outra pessoa uma resposta ao seu único
sentimento verdadeiro, o ódio.”
A obra de Patrick Süskind primeiro nos convida à uma viagem
fora da lógica, e nos conta muita coisa, muito mais que a história de um
assassino... metáforas ao mal, ego, identidade, poder, manipulação, pureza,
carisma, inocência, desejo. Seu cenário desvenda um pouco desse universo de
aromas, dos óleos vegetais, da destilação à vapor, enfleurage, das notas
olfativas, da vibração etérea que os óleos essenciais exercem. E nas
entrelinhas conta-nos de Espírito, Unidade, Presença, Insights, Amor... porque sua
obra tem o tema “Essência” !
Talvez Süskind se sinta como seu personagem “...Os outros só se submetem ao seu efeito, sim, nem se quer sabem que se trata de um perfume o que sobre eles atua e fascina.”.
Como cita: “... a temível beleza”, a fragrância do Amor Maior. A centelha divina e viva além da matéria.
Patrick Süskind, ao meu ver, faz uma genial metáfora na história de O Perfume criando um elo essencial entre Vida e Amor:
Amor e Vida, pulsação única universal, além do tempo e do nosso pequeno entendimento.
Grenouille recém-nascido contra o amor, passa sua trajetória
na melhor das hipóteses como um farsante.
Escolhera vida sem Vida. E o desfecho desta história
enigmática fecha a mandala da sua existência com a "morte" do ego.
consumado!
Fim
.
Essa meditação é inspirada em texto da perfumista Mandy Aftel:
Esse texto também pode ser ouvido no Podcast Sentidos:
https://open.spotify.com/show/7yI6cgyT7x4DspXxVxkJ1m
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Temos constantemente a sensação de que a vida ganha ou perde o seu sentido.
Mas, primeiro, vamos investigar a respeito do que é feito o sentido?
Há muitos sentidos. Dentre eles, tem o sentido que damos, por exemplo,
às crenças, aos valores sociais, ao trabalho, a empreender, status, bens. Estes
podem fazer sentido por um bom tempo, principalmente quando somos mais jovens e
queremos reconhecimento na sociedade e/ou na família. Tem também os valores, os
sentidos, que dão a estabilidade, as relações amorosas, a liberdade...
Ainda na adolescência, pode acontecer uma crise daquelas do tipo
existencial, e aquilo que tinha sentido em se acordar de manhã, se esvai. Tudo
vai ficando mais cinzento. Outras vezes, a crise começa num casamento ou no fim
de um emprego, ou na meia idade, quando filhos saem de casa, ou até quando
perdemos o nosso bichinho de estimação. Enfim, é quando vamos perdendo por meios
afetivos, referenciais do “eu”. E é normalmente nesses momentos onde o chão
some, que começamos a despertar para algo além dos cinco sentidos.
O ideal seria ter ajuda ou uma rede de apoio que reconheça as riquezas
da tristeza, das crises, do tempo necessário à ampliação de significados através
da profundidade. Através da reflexão, e do próprio tempo...
Dando acolhimento para aquilo ser "sentido", e não abstraído,
não ocupado por entretenimento e diversão, ou outro meio de fuga. A partir do
que possa ser concedido ser “sentido” sem julgamento, aquilo se transforma por
si mesmo.
E essa transformação não é sobre dar sentido, porque aqui também podemos
cair numa constante frustração. Mas, é ao sentido que possa ser de alguma
forma, apenas, reconhecido, seja na sua manifestação visível ou não, sendo compreendido
ou aceito. Mas para isso, vamos ter que olhar de novo, vamos ter que nos abrir
para aquilo, vamos ter que deixar de lado as engessadas conclusões.
E há casos onde, querendo ou não, se dá também um novo sentido, pessoas
que vão significar a perda através de outras vidas. É como se uma vida fosse
então viver em outra, ou outras no caso de instituições, por exemplo. Tudo isso
pode ser muito importante, mas se não houver o matrimônio entre céu e terra, do
invisível com o visível, o subjetivo com o tangível, vamos de novo cair na sensação
de perda de sentido.
Podemos também questionar que sentido tem certas coisas... como alguém
viver debilitado ou com alzheimer até mais de 100 anos. Que sentido tem uma
criança morrer? Qual o sentido da fome e da miséria? Qual o sentido de se fazer
X coisa... e por aí vai...
Tem uma gama questionável que é bem importante para soluções e mudanças
de visões. Foi provavelmente através das perguntas que muito do que existe no
nosso planeta foi inventado e desenvolvido, e que culturas se transformaram.
Mas, tem outra gama que não tem nenhum sentido, segundo à nossa limitada
compreensão.
Tudo pode desaparecer dos nossos olhos ou ter mudado a sua aparência, o
seu sentido. A dor do rompimento que sentimos são a dos fios invisíveis nos
ligando a pessoas, aos animais e até mesmo com objetos que gostamos muito, ou a
um trabalho, uma casa. Porque tudo é sempre conexão. E não é porque se rompeu
exatamente, mas é a ligação com nosso senso de “eu” que parece perdida, como
quem perde uma parte de si mesmo. Porém os fios continuam nos conectando, é só a
nossa percepção limitada dentro do ego que se imagina desconectada.
A alma sempre pede por equilíbrio. A vida da alma pode não significar
nada aos olhos dos moldes sociais descritos por felicidade. Muito além do que
achamos que devia ou não devia ser, a alma serve ao Todo, cumprindo seu próprio
Sentido.
Ver algo ou sentir a vida sem sentido, é um ponto fundamental para o
questionamento, para perceber que o sentido único da vida é viver. E que viver
envolve sentir, sentir todos esses fios invisíveis de conexão com tudo, e que vão
também sendo tecidos pela nossa mente e pelo nosso coração.
E que amor, compaixão e sabedoria é o que mensura a qualidade desses
elos, trazendo para a vida a experiência com o sagrado.