17 julho, 2023

Cultivando Autocompaixão

 Dalai Lama, com o pesquisador e autor Thupten Jinpa


O texto a seguir é um trecho do livro “Fearless Heart”, em que Thupten Jinpa apresenta o programa “Treinamento para o cultivo da compaixão” (TCC), que foi desenvolvido na Universidade de Stanford, nos EUA, como uma forma de trazer as meditações de compaixão do budismo tibetano para um público maior, de modo independente do budismo ou de uma tradição espiritual, aliadas à ciência. Essa iniciativa vem de um pedido do Dalai Lama, durante discussões do Mind & Life Institute, que promove o intercâmbio entre meditadores e cientistas. Abaixo, seguem trechos do capítulo sobre auto-compaixão:

O que não é auto-compaixão

… É verdade que somos mais felizes quando estamos menos focados em nosso ego e mais voltados para o mundo, mas a auto-compaixão é totalmente diferente de uma absorção narcisista no próprio ego. Pessoas verdadeiramente auto-compassivas tomam conta de si mesmas enquanto permanecem atentas aos sentimentos e necessidades daqueles ao redor. Na verdade, a saúde mental e física, que vem de sermos mais gentis conosco, nos permite cuidar melhor das outras pessoas. Quando nos fixamos em nosso ego, por outro lado, ficamos tão presos em nosso próprio mundo que não temos espaço para ninguém mais.
Auto-compaixão também não deve ser confundida com auto-piedade. Na auto-piedade, somos capturados por nossos problemas e, ao ter pena de nós mesmos, ficamos indiferentes ao mundo ao redor. Auto-piedade é uma forma de fixação no ego, enquanto auto-compaixão nos permite ver nossas dificuldades no contexto maior da experiência humana compartilhada. Por causa de sua visão mais curta, afunilada, a auto-piedade tende a criar uma explosão com nossa situação de modo que mesmo um problema minúsculo fica parecendo esmagador e insuportável. Em contraste, a auto-compaixão permite uma atenção às proporções, que nos ajuda a lidar com obstáculos e sofrimentos de modo mais construtivo.
Auto-compaixão não é auto-gratificação. A coisa mais compassiva a fazer por nós mesmos pode não ser comer todo o pacote de salgadinhos, ou não confundir desejo com necessidade — não comprando o que não precisamos. A auto-compaixão não é um impulso para presentearmos a nós mesmo, embora às vezes, após reflexão cuidadosa, possamos decidir fazer isso. Igualmente importante: auto-compaixão não é sermos agressivos conosco por comer os salgadinhos, comprar o supérfluo ou nos dar o presente.
Finalmente, auto-compaixão não é o mesmo que auto-estima. Com auto-compaixão, nos conectamos a nós mesmos, especialmente nossas lutas e falhas, com compreensão, gentileza e aceitação. Auto-compaixão é uma orientação gentil, cuidadosa, de visão clara porém sem julgamentos, de nosso coração e mente em relação ao nosso sofrimento e necessidades. A auto-estima, por outro lado, é uma visão de si baseada em auto-avaliação. Enquanto a auto-compaixão pode contribuir para uma melhor auto-estima, ela não depende disso… Certamente, não há nada errado com a auto-estima em si. Mas ela frequentemente é relacionada com quantas realizações obtemos, o que leva as pessoas, incluindo crianças, a acreditarem que só serão estimadas (por elas mesmas e pelos outros) se tiverem “sucesso”. E a auto-estima é distorcida pela nossa cultura de competição, de modo que muitas pessoas entendem seu próprio valor somente em comparação com outras pessoas. … Alguns cientistas também levantam preocupações similares. Pesquisadores descobriram que a auto-estima que depende de realizações nos deixa mais vulneráveis a sentimentos de inadequação e fracasso, quando as coisas dão errado. Alguns estudiosos mostram evidências de que a busca pela auto-estima pode prejudicar o aprendizado, especialmente o aprendizado com os próprios erros. … Ao cultivar auto-compaixão, não nos avaliamos com base em nossos sucessos mundanos, e não nos comparamos com os outros. … Então, a auto-compaixão, diferentemente da auto-estima, permite nos conectarmos melhor com os outros e ter uma disposição mais positiva com eles…

Auto-compaixão e tipos de ligação

Todos temos a capacidade para auto-compaixão, mas não lidamos com isso da mesma maneira. Segundo pesquisadores da área, nossas diferenças vêm dos mecanismos de auto-proteção que adquirimos ao lidar com os desafios e desapontamentos na vida. Estudos sobre o desenvolvimento e personalidade de crianças dizem que a ativação e o desenvolvimento do que os cientistas chamam de sistema de afiliação nos primeiros anos da vida de uma criança são o fator-chave. O sistema de afiliação, ou sistema de carinho (como às vezes é chamado), se refere a sentimentos de segurança, conexão e contentamento, e está ligado à nossa produção natural de opiáceos e hormônios como a oxitocina (às vezes, chamado de “o hormônio do carinho”). Através do cuidado encorajador da mãe (ou pai), idealmente, um bebê acaba reconhecendo seus pais como fontes de segurança e tranquilização. Com essas experiências iniciais, o bebê forma memórias emocionais de segurança, tranquilização e calma. O bebê se sente seguro e não se esquece disso. Nesse cenário feliz, o bebê é agraciado com o que os psicólogos chamam de “ligação segura”. Baseados no trabalho de John Bowlby e Mary Ainsworth, estudiosos contemporâneos definem quatro tipos principais de ligação:
ligação segura
  1. ansiosa e preocupada
  2. de recusa e fuga
  3. temerosa e de fuga
Mas os estilos de ligação não são apenas para bebês; esse conceito se aplica aos primeiros anos e como eles afetam nossa personalidade — especificamente, como nos relacionamos com as pessoas a quem estamos ligados por toda a vida. Ao crescermos, dizem alguns estudiosos, nossa capacidade de nos acalmar se desenvolve a partir dessas experiências iniciais — um processo de recordação emocional, poderíamos dizer. Lá no fundo, se temos um tipo de ligação segura, acreditamos que estamos bem e seguros, ou pelo menos acreditamos nessa possibilidade, porque já vivenciamos isso antes. Idealmente, essas memórias ficam conosco como um cobertor mental de segurança, para momentos de estresse. Então, nosso estilo de ligação afeta nossos hábitos de regulação emocional, que afetam a base de nossa auto-compaixão na vida adulta. Se nossas experiências iniciais forem menos que ideais, como adultos temos que criar aquele conforto e segurança do zero. Não é fácil, mas é bem possível, porque já temos a matéria prima: nossa experiência de sofrimento e nossa capacidade humana natural para a compaixão.
Se não estivermos entre os sortudos com ligação segura, podemos aprender a ter compaixão por nós mesmos exatamente por esse fato! Além disso, nossa personalidade pode ser mais flexível e receptiva a mudanças do que imaginamos.

Fonte:

O Sofrimento Interdepende

 Abaixo dois textos - um pessoal e outro retirado de um trecho da revista Vida Simples - onde podemos observar como o sofrimento tem relação com a falta de redes de apoio, de recursos sociais e amparo afetivo. Inclusive este tema é o estudo focado da Psicologia sócio-histórica com base na abordagem do psicólogo Lev Vygotsky (1896-1934), que acreditava na constituição do comportamento biológico humano em relação ao meio no qual estamos inseridos.





O Sofrimento e o Gutemberg


(Esse texto pode ser ouvido também no podcast Sentidos) Às vezes eu penso que o sofrimento, ainda é igual àquela minha primeira semana no Gutemberg. O pré já foi um desafio, mas nada comparável a Johannes Gutemberg – que era o nome da escola onde fui cursar a primeira série. Acho que fiquei semanas imaginando o quão terrível seria ir para aquela escola. Romper as horas que eu passava com minha mãe, ou brincando em casa ou na rua com as amigas.
Aquela escola era o pesadelo, era longe, paredes e escadas de concreto cinza. Janelas estilhaçadas, muros pichados. O cheiro esquisito e entorpecente que vinha da cozinha até hoje não saiu do meu nariz. Me lembro de olhar com nostalgia pelos buracos da janela, sonhando em voltar para casa, com saudades de tudo, enquanto a professora tava lá explicando as letrinhas. Até que não demorou muito e eu dei uma leve surtada... Com muito choro... me recusei a ficar naquela escola. Daí, veio a professora me acalmar e ela teve um plano... me colocar como primeira da fila e me deu a tarefa de recolher todos as cadernetas para serem carimbadas com presença – todo dia então eu teria essa responsabilidade. E assim foi... que me dando algum sentido para ir para escola, que arduamente consegui terminar aquele ano até finalmente sair de lá. Da segunda à oitava série, foi quase o paraíso, tinha amigos, a escola era mais perto, bem arrumada e com jardim – foi uma obra do Maluf na época. No segundo grau, fiz técnico numa escola bem disputada. Foi complicado de novo romper vínculos, muitos não davam conta e saiam. Mas na sala cada um tinha vindo de uma escola, poucos se conheciam, e nisso nós fomos formando bons vínculos nesse primeiro ano. Mas eu suava frio em toda aula de matemática. Já no segundo e terceiro ano, nos dividiram, e pouco podíamos conversar porque viramos salas concorrentes, dentro dos trabalhos que seriam desenvolvidos. Foi outro ano bem difícil, além de estudar de noite, a maioria trabalhava e chegava esgotada na escola. Era todo mundo bem independente e tinha uma frieza coletiva. Meus maiores vínculos afetivos tinham virado ocupados e concorrentes! Me deprimi horrores nesse ano.
É assim o sofrimento. Porque somos seres interdependentes, seres de vínculos. Tudo ao nosso redor nos faz. Paredes, texturas, cores, cheiros, imagens, vibrações, sons, pessoas, tudo ao redor. Desastres, guerras, separações, perdas, mortes, pandemias, preconceitos, discriminações, desmatamentos, poluição. Tudo que nos divide, causa medo, sofrimento e dor. E nesse sentido podemos minimizar sofrimentos, o quanto mais soubermos sobre interdependência. Podemos ser mais conscientes em fazer escolhas, e em tornar o mundo um lugar mais bonito, limpo, unido, acolhedor e pacífico - comunitário. Tarefa nossa a de cultivar jardins internos, quanto de fato externos.

_____________ Vaca Antidepressiva:



(...) Médicos cambojanos, por exemplo, tem uma definição muito diferente do que é um antidepressivo. Quando um agricultor de arroz perdeu a perna por ter pisado em uma mina terrestre, ele entrou em depressão, apesar de ter recebido uma prótese que permitia sua locomoção, o agricultor sentia muita dor e chorava o dia todo. Não conseguia mais fazer seu trabalho e mal saia da cama. Se morasse no Brasil ou nos Estados Unidos seria levado a um psiquiatra e sairia com uma receita de antidepressivos. No Camboja, no entanto, o "remédio" foi diferente. Depois de conversar com o paciente e com sua comunidade, os médicos decidiram comprar uma vaca para o homem acidentado. A lógica era de que ele não precisaria enfrentar o trauma dos campos de arroz, onde perdera uma perna, e poderia se dedicar a outra atividade. Em duas semanas, os sintomas da depressão desapareceram e ele seguiu com sua vida. A vaca era o antidepressivo.
(...)
O antidepressivo ideal não é uma pílula que se toma no café da manhã. É a força de uma comunidade que faz questão de abraçar aqueles que se veem numa situação difícil.

Diogo Antonio Rodrigues - para a revista Vida Simples nr 216 (trecho de Saiba lidar com a Ansiedade)

Bagunce!

Sabe aquela cena do filme Dormindo com o Inimigo quando a personagem, interpretada pela Julia Roberts, está organizando a casa nova? Sem se dar conta, arruma tudo simetricamente no armário - como tinha que fazer no casamento abusivo - e quando se dá conta do que faz, entorta as toalhas e dá uma bagunçadinha geral.


Essa "bagunçadinha", devia ser o nosso objetivo diário!

Mas, só quem já pôde se ver como observador de si, de sua história, através de seu próprio autoconhecimento ou no auxílio do acompanhamento terapêutico, é que pode se ver agindo dentro de padrões e caixas, repetindo, reagindo...
Por isso, dou valor a rever ao menos partes da biografia em terapia, ali fazemos o paralelo entre questões emocionais e somatizações atuais com impressões/filtros mentais.

Assim, além da observação, nomeamos, damos voz ao que andava calado, e ganhamos um tanto de liberdade para criar uma nova ação, ao invés do funcionamento no modo automático. Temos a oportunidade de "soltar", porque sabemos o que soltar!

E soltar é diminuir tensões, relaxar e descontrair com mais facilidade.

E o exercício é contínuo... investigar, observar, respirar, soltar... Respirar e soltar...muitas vezes, até que a gente não apenas se dê conta que saiu da prisão, mas que as prisões sairam de nós!






18 março, 2022

O Perfume



Quem pouco conhece sobre óleos essenciais, acaba tendo uma visão restrita, quando não incompreensível do filme O Perfume. 

Convido a esta instigante viagem sensorial, com trechos desta maravilha literária do alemão Patrick Süskind.

por Milene Cristine Siqueira

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O Perfume mostra a fixação do personagem Jean-Baptiste Grenouille em conseguir - à primeira vista - identidade, amor e domínio. Mas não era qualquer domínio, nem qualquer identidade, nem qualquer amor...

 “...Queria ser o Deus onipotente do aroma, como o fora em suas fantasias, mas agora no mundo real e sobre pessoas reais. E ele sabia que isso estava em seu poder. Pois as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.”

Grenouille entusiasma-se com esse objetivo ao sentir o aroma de uma jovem ruiva, aquela a quem entre tantos cheiros, ele - com sua capacidade olfativa singular -reconhece ser o aroma da Perfeição: 

“...Este perfume tinha frescura; não era, porém, a frescura das limas ou das laranjas, a frescura da mirra ou da folha de canela, ou da hortelã, ou das bétulas, ou da cânfora, ou das agulhas de pinheiro, nem a de uma chuva de Maio, de um vento gelado ou da água de uma nascente... e continha simultaneamente calor; mas não um calor semelhante ao da bergamota, do cipreste ou do musgo, nem ao do jasmim ou do narciso, nem ao de um bosque de rosas ou de íris... Este perfume era uma mistura de ambos, do que passa e do que pesa; não uma mistura, mas uma unidade, e, além disso, humilde e fraco, e, no entanto, robusto e resistente como um pedaço de seda fina e brilhante... e, todavia, não como a seda, mas antes como o leite com mel onde se molha um biscoito, o que nem com a melhor das boas vontades se conjugava:leite e seda! Incompreensível este perfume, indescritível, impossível de classificar! Não deveria, na realidade, existir. E, no entanto, ali estava com a mais absoluta das obviedades...” (*1)

Eu li o livro em 1995, e a cena grotesca do nascimento de Grenouille sob a mesa de limpar peixes na Paris de 1738, era tão vívida em minha lembrança tal qual o filme mostrou, quando o assisti em 2007.

A cena do nascimento deve ser proposital, pois é fato de que o corpo humano em excitação sexual exale um odor similar ao de peixes e mariscos. Grenouille será o primeiro dos outros quatro filhos nascidos na mesma situação que irá nesse ambiente podre e fétido - em meio ao lixo e peixes em decomposição - jogado na sombra e no cheiro da vida que fenece, sobreviver.

Nesse ambiente onde se mesclam o cheiro da fertilidade e da morte, Grenouille nasce com uma capacidade olfatória singular e a usará como o usa um animal predador, ou menos, pois Süskind o compara a um... carrapato.

 “...O grito depois do seu nascimento, o grito sob a mesa de limpar peixe, o grito com que ele se tinha feito notar e levado a mãe ao cadafalso, não fora um grito instintivo de compaixão e amor. Fora bem pesado, quase se poderia dizer um grito maduramente pensado e pesado, com que o recém-nascido se decidira contra o amor e, mesmo assim, a favor da vida. Nas circunstâncias, isto era possível sem aquilo, e, se a criança tivesse exigido ambos, então teria, sem dúvida, fenecido miseramente. Também teria podido, no entanto, escolher naquela ocasião a segunda possibilidade que lhe estava aberta, calando e legando o caminho do nascimento para a morte sem esse desvio pela vida, e assim teria poupado a si e ao mundo uma porção de desgraças. Mas, para se omitir tão humildemente, teria sido necessário um mínimo de gentileza inata, e isto Grenouille não possuía. Foi um monstro desde o começo. Ele se decidiu em favor da vida por pura teimosia e maldade.”(*2)

Grenouille ainda irá sobreviver em vários episódios narrados no livro. “...Tinha a resistência de uma bactéria”  - o que justifica a aparência de frágil, manco, com cicatrizes e escoriações que apresenta o personagem no filme.

Grenouille tem um olfato incomum, mas não possui cheiro!

Para os personagens que faz contato, deixa sempre um rastro destrutivo“...devorava tudo, absolutamente tudo e absorvia tudo”.

Uma pena que no filme não se conte a história de Madame Gaillard, do padre Terrier, nem das amas que o rejeitam, pois “ ...ele suga-lhes até os ossos...” , do fato incomôdo de que Grenouille causa à todas as pessoas que são invadidas (cheiradas) em suas emoções mais profundas. Da estranheza que causa, afinal não é possível 'cheirar' quem é Grenouille.

Até que finalmente encontra Madame Gaillard com seu nariz torto:

 “...Quando era ainda uma menina, o pai batera-lhe com um atiçador na fronte, mesmo por cima do começo do nariz e ela perdera o olfato, juntamente com toda a noção do calor ou da frieza humanos e da paixão em geral...”

E assim, lhe é aceitável em seu orfanato, até que mais tarde Madame Gaillard começa a notar em Grenouille diversos poderes “...sobrenaturais”, como saber (cheirar) quando as pessoas estão chegando. Até o medo maior de que ele também descubra seu dinheiro guardado, e assim trata de livrar-se dele.

É fato que a primeira vez que assisti ao filme, não notei alguns detalhes, nossos olhos acabam ficando receosos, sobretudo dos assassinatos. Tem muitas cenas escuras, pois além da época, a claridade dá o contraste – como morte e vida - a luz revela os belos campos de lavanda ou o verde das montanhas.

Há uma cena memorável do perfumista Baldini, interpretado por Dustin Hoffman, que viaja no atemporal em cores, leveza, amor e frescor ao sentir um perfume elaborado por Grenouille.

 “...Baldini cerrou os olhos e pôde ver nele despertadas recordações das mais sublimes. Viu-se caminhando, jovem, por jardins, à noite, em Nápoles; viu-se deitado nos braços de uma mulher com negras franjas e viu a silhueta de um ramalhete de rosas no peitoril da janela, pela qual soprava um vento noturno; ouviu pássaros cantando e, de longe, a música de uma taberna; ouviu coisas sussurradas bem pertinho do seu ouvido, um eu-te-amo, e sentiu como seus cabelos se eriçavam de puro deleite, agora! Nesse instante! Gemeu de prazer....Era algo de inteiramente novo, capaz de criar por si todo um universo, um universo maravilhoso e luxuriante e logo se esquecia o que o mundo à volta possuía de repugnante. Uma pessoa sentia-se rica, livre e boa... Os cabelos eriçados do braço de Baldini se deitaram e uma sedutora paz de espírito dele se apossou...”

Grenouille só irá perceber que não cheira a nada bem mais tarde, quando se retira nas montanhas, lá onde até então pensara ser feliz, no lugar onde não haviam comparações...

Numa cena do filme, Grenouille passa por cães de guarda, que dormem, sem ser de forma alguma notado – aparecendo mais nitidamente aos nossos olhos como se sente: um fantasma.

 “...Desde jovem estava acostumado a que as pessoas que por ele passavam nem sequer tomassem conhecimento, não por desconsideração — como uma vez havia acreditado — mas porque não notavam a sua existência. Não havia espaço algum em torno dele, nenhum impulso de onda que ele, como as outras pessoas, emanasse na atmosfera, nenhuma sombra, por assim dizer, que ele tivesse podido projetar sobre o rosto das outras pessoas.” 

Não é contado no filme, mas a primeira possibilidade de Grenouille ser notado é quando formula para si um perfume com cheiro humano, o cheiro superficial, mas o suficiente para enganar as pessoas – consegue ser “visto”! Inclusive, Grenouille usando desse artifício melhora sua postura corporal.

Só que a partir daí... Grenouille tem uma ideia que lhe faria mais do que um igual...

Em Grasse, de posse das essências (almas) das jovens, Grenouille finalmente irá elaborar “O Perfume” na cena mais surpreendente do filme.

A cena na Place dus Cours onde seria executado, que vista sem entendimento irá parecer completamente desprovida de sentido - como nada além de uma grande orgia - é o contexto aqui descrito:

 “.... seria capaz de criar um odor que fosse não só humano, mas sobre-humano, um odor angélico, tão indescritivelmente bom e com tanta energia vital que quem o cheirasse ficaria enfeitiçado, ficaria sob um encantamento, tendo de amar de todo o coração a Grenouille, o portador desse fantástico aroma. Sim, amá-lo é o que deveriam quando estivessem sob o fascínio do seu cheiro, não apenas aceitá-lo como igual, mas amá-lo até a loucura, até o sacrifício pessoal; deveriam tremer de encanto, uivar e gritar, chorar de prazer, sem saber por quê, cair de joelhos — isto é que deveriam fazer como sob o incenso frio de deus, só por chegarem a cheirá-lo!”

Grenouille revestido de toda aura aromática de apenas uma gota do “Perfume”, transmuta-se para as pessoas em Anjo ou na personificação do melhor que elas crêem. Diferentemente do que parece, as pessoas não se desnudam com o olhar da moralidade com o qual podemos assistir. O “Perfume” é a descrição da primeira jovem (*1), o aroma da união dos opostos, da totalidade, da Unidade!

As pessoas entram no seu paraíso pessoal, numa nuvem espiritual que toma todo o ar, só há a embriaguez do êxtase para respirar... da liberdade, da alegria, da inocência.

E desprovidos de qualquer razão, e portanto dos preconceitos, do julgamento, do Bem e do Mal, de um passado e de um futuro, transcendem como podem, profano e sagrado são um só, buscando através dos seus corpos também ser Um - inebriados dão-se, acolhem-se, fundem-se. É a alegoria de um arrebatamento indescritível, à semelhança dos aromas mais sutis na natureza, que são pura onda de energia vital/sexual!

O pai de Laure, Richis, vê a legitimidade em essência de sua filha, aromaticamente vestido em Grenouille.

 “...O olhar de Richis pousava sobre ele. Amor infinito havia nesse olhar, delicadeza, comoção e a profundidade oca, boba, de quem ama.”

Grenouille num primeiro momento comemora seu feito, ri, vive o grande triunfo. Mas não demora muito para ir do êxito ao fracasso, cair em si e derramar uma gota de lágrima. Proporcionara às pessoas a embriaguez do Amor, mas ele, Grenouille, começa a se sentir mal, sufocado da falta de si mesmo.

Frustrado, começa uma caminhada de volta à Paris. Com o Perfume no bolso, sabe que detém de um poder que lhe pode proporcionar qualquer coisa, pois faz as pessoas amarem. Mas já nada importa, pois sabe que com toda riqueza e todo poder que poderia ter, nada disso lhe faria ter seu próprio cheiro e então ser alguém, e mais que ser alguém para os outros, agora percebera o mais importante  “...não podia cheirar a si mesmo e, por isso, jamais saberia quem ele era”.

E constata sobre o Perfume, e seu próprio paradoxo “...o único que alguma vez o reconheceu em sua verdadeira beleza fui eu, porque eu mesmo o fiz. E ao mesmo tempo sou o único a quem ele não pode fascinar, não pode deixar fora de si. Sou o único para quem não tem sentido.”

Quando Grenouille relembra a cena da praça, pensa: “...As pessoas, no entanto, acreditavam que desejavam a mim, e o que elas realmente desejavam permaneceu um segredo para elas.”

Grenouille chega à Paris, ao mesmo local do seu nascimento, ao mesmo cheiro.

Mistura-se ao redor de uma fogueira - como sempre sem ser notado - entre os ladrões, prostitutas, assassinos, desesperados, famintos. E ali derrama em si todo o conteúdo que carregava do “Perfume”, e após um momento de maravilhamento das pessoas, é por elas devorado.

Grenouille atira contra ele a arma mais poderosa que tinha em mãos, o Amor.

Saindo de Grasse, Grenouille havia decidido morrer. Já tinha experimentado viver com as pessoas e se refugiado delas, e nem uma ou outra ideia lhe agradava. E sua decepção o fez saber que o reconhecimento desejado era uma ilusão.

Caira na própria armadilha, o “Perfume” na Place dus Cours também distinguira o que havia de mais profundo no coração de Grenouille...

 “...O que ele sempre havia desejado, ou seja, que as outras pessoas o amassem, tornava-se, no instante do seu êxito, insuportável, pois ele mesmo não as amava, mas as odiava. E de repente soube que jamais encontraria satisfação no amor, mas tão-somente no ódio, no odiar e no ser odiado.”

Grenouille descobrira que o amor das outras pessoas não lhe trazia satisfação, não só porque não era atribuído para ele próprio, mas porque não amava as pessoas, e a satisfação do amor, é amar! A possibilidade de sua sobrevivência sempre fora na ausência do amor. Conclui que o sentimento que o mantém é unicamente o ódio.

“...Uma vez, uma única vez, queria ser considerado em sua verdadeira existência e receber de outra pessoa uma resposta ao seu único sentimento verdadeiro, o ódio.”

 Grenouille caminha pela história em personificação de como na maioria das vezes caminha - dentro e fora - o Mal. Nas sombras, imperceptível, inodoro, mas incômodo, sugador, destrutivo, disfarçado, invejoso, egoísta.

A obra de Patrick Süskind primeiro nos convida à uma viagem fora da lógica, e nos conta muita coisa, muito mais que a história de um assassino... metáforas ao mal, ego, identidade, poder, manipulação, pureza, carisma, inocência, desejo. Seu cenário desvenda um pouco desse universo de aromas, dos óleos vegetais, da destilação à vapor, enfleurage, das notas olfativas, da vibração etérea que os óleos essenciais exercem. E nas entrelinhas conta-nos de Espírito, Unidade, Presença, Insights, Amor... porque sua obra tem o tema “Essência” !

Talvez Süskind se sinta como seu personagem “...Os outros só se submetem ao seu efeito, sim, nem se quer sabem que se trata de um perfume o que sobre eles atua e fascina.”.

 “O Perfume” é sinônimo de “O Amor”.

Como cita: “... a temível beleza”, a fragrância do Amor Maior. A centelha divina e viva além da matéria.

Patrick Süskind, ao meu ver, faz uma genial metáfora na história de O Perfume criando um elo essencial entre Vida e Amor:

 “...recém-nascido Grenouille se decidira contra o amor e, mesmo assim, a favor da vida.”(*2)

Amor e Vida, pulsação única universal, além do tempo e do nosso pequeno entendimento.

Grenouille recém-nascido contra o amor, passa sua trajetória na melhor das hipóteses como um farsante.

Escolhera vida sem Vida. E o desfecho desta história enigmática fecha a mandala da sua existência com a "morte" do ego.

 Jean-Baptiste Grenouille rende-se. Retorna a sua origem - para por Amor ser enfim
consumado!

 “...Embora o estômago lhes pesasse um pouco, seus corações estavam bem leves. Em suas almas sombrias havia, de repente, um clima eufórico. E em seus rostos repousava um suave brilho de felicidade, um brilho de donzela. Daí talvez o pudor de alçarem o olhar e se olharem nos olhos. Quando o ousaram, primeiro furtivamente e depois abertamente, foram obrigados a sorrir. Estavam extraordinariamente orgulhosos. Pela primeira vez, haviam feito algo por amor.”

 

Fim 


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15 março, 2022

Meditando com os Aromas


Essa meditação é inspirada em texto da perfumista Mandy Aftel:


Vá para um ambiente em que não seja perturbada, sente-se em uma posição confortável e esteja com o óleo essencial escolhido. 
Inale do próprio vidrinho ou coloque uma gota em um lenço, ou em um pires. Em meditação em grupos, pode ser feito um borrifador e aspergir como uma chuva aromática ou colocar um difusor de ambiente, como o aromatizador elétrico.

Inspire profundamente o aroma por três vezes, soltando o ar também pelo nariz.
Mantendo os olhos abertos, imagine sua consciência se dissolvendo dentro do aroma, como se estivesse tocando-o, imergindo nele, fluindo com ele. Quando atingir o ponto de saturação, feche os olhos para se distanciar de todos os sentidos que não seja o olfato.

Deixe-se viajar profundamente para dentro de você, preservando o aroma que escolheu, e toque-o com sua visão dele. 

Construa uma imagem interior da essência - a essência da essência. Imagine-a como um espectro, um animal, uma lembrança, uma música ou uma dança, qualquer coisa que lhe pareça inteiramente representada pela impressão profunda do aroma. Você verá que cada aroma sob o qual meditar cria uma imagem interna e uma experiência meditativa diferentes.

Recomece. Repita as fases exterior (olhos abertos) a interior (olhos fechados) alternadamente, até que sua alma se sinta plena. Depois date e anote suas percepções sobre as meditações.

Esse exercício a ajudará a incutir em sua consciência uma conexão viva com uma essência específica e, através dela, com a dimensão espiritual dos aromas em geral.




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04 março, 2022

Sentidos

Esse texto também pode ser ouvido no Podcast Sentidos:

https://open.spotify.com/show/7yI6cgyT7x4DspXxVxkJ1m

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Temos constantemente a sensação de que a vida ganha ou perde o seu sentido.

Mas, primeiro, vamos investigar a respeito do que é feito o sentido?

Há muitos sentidos. Dentre eles, tem o sentido que damos, por exemplo, às crenças, aos valores sociais, ao trabalho, a empreender, status, bens. Estes podem fazer sentido por um bom tempo, principalmente quando somos mais jovens e queremos reconhecimento na sociedade e/ou na família. Tem também os valores, os sentidos, que dão a estabilidade, as relações amorosas, a liberdade...

Ainda na adolescência, pode acontecer uma crise daquelas do tipo existencial, e aquilo que tinha sentido em se acordar de manhã, se esvai. Tudo vai ficando mais cinzento. Outras vezes, a crise começa num casamento ou no fim de um emprego, ou na meia idade, quando filhos saem de casa, ou até quando perdemos o nosso bichinho de estimação. Enfim, é quando vamos perdendo por meios afetivos, referenciais do “eu”. E é normalmente nesses momentos onde o chão some, que começamos a despertar para algo além dos cinco sentidos.

O ideal seria ter ajuda ou uma rede de apoio que reconheça as riquezas da tristeza, das crises, do tempo necessário à ampliação de significados através da profundidade. Através da reflexão, e do próprio tempo...

Dando acolhimento para aquilo ser "sentido", e não abstraído, não ocupado por entretenimento e diversão, ou outro meio de fuga. A partir do que possa ser concedido ser “sentido” sem julgamento, aquilo se transforma por si mesmo.

E essa transformação não é sobre dar sentido, porque aqui também podemos cair numa constante frustração. Mas, é ao sentido que possa ser de alguma forma, apenas, reconhecido, seja na sua manifestação visível ou não, sendo compreendido ou aceito. Mas para isso, vamos ter que olhar de novo, vamos ter que nos abrir para aquilo, vamos ter que deixar de lado as engessadas conclusões.

E há casos onde, querendo ou não, se dá também um novo sentido, pessoas que vão significar a perda através de outras vidas. É como se uma vida fosse então viver em outra, ou outras no caso de instituições, por exemplo. Tudo isso pode ser muito importante, mas se não houver o matrimônio entre céu e terra, do invisível com o visível, o subjetivo com o tangível, vamos de novo cair na sensação de perda de sentido.

Podemos também questionar que sentido tem certas coisas... como alguém viver debilitado ou com alzheimer até mais de 100 anos. Que sentido tem uma criança morrer? Qual o sentido da fome e da miséria? Qual o sentido de se fazer X coisa... e por aí vai...

Tem uma gama questionável que é bem importante para soluções e mudanças de visões. Foi provavelmente através das perguntas que muito do que existe no nosso planeta foi inventado e desenvolvido, e que culturas se transformaram.

Mas, tem outra gama que não tem nenhum sentido, segundo à nossa limitada compreensão.

Tudo pode desaparecer dos nossos olhos ou ter mudado a sua aparência, o seu sentido. A dor do rompimento que sentimos são a dos fios invisíveis nos ligando a pessoas, aos animais e até mesmo com objetos que gostamos muito, ou a um trabalho, uma casa. Porque tudo é sempre conexão. E não é porque se rompeu exatamente, mas é a ligação com nosso senso de “eu” que parece perdida, como quem perde uma parte de si mesmo. Porém os fios continuam nos conectando, é só a nossa percepção limitada dentro do ego que se imagina desconectada.

A alma sempre pede por equilíbrio. A vida da alma pode não significar nada aos olhos dos moldes sociais descritos por felicidade. Muito além do que achamos que devia ou não devia ser, a alma serve ao Todo, cumprindo seu próprio Sentido.

Ver algo ou sentir a vida sem sentido, é um ponto fundamental para o questionamento, para perceber que o sentido único da vida é viver. E que viver envolve sentir, sentir todos esses fios invisíveis de conexão com tudo, e que vão também sendo tecidos pela nossa mente e pelo nosso coração.

E que amor, compaixão e sabedoria é o que mensura a qualidade desses elos, trazendo para a vida a experiência com o sagrado.

 


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