17 julho, 2023

Brutalidade, emoções contidas e medo de ser livre

 por Kátia Marko


Violência social resulta frequentemente de prazeres frustrados e raiva reprimida. Só quem recupera a liberdade é capaz de transformar o mundo.

Somos todos violentos. Podemos não reconhecer isso. Acreditamos não ser violentos porque não matamos, roubamos, batemos ou quebramos. Mas se olharmos com mais atenção, vamos perceber que a violência passiva, ou seja, de natureza emocional, faz parte do nosso dia a dia. E é ela que alimenta a fornalha da violência física. Atitudes egocêntricas, egoístas, manipuladoras, maliciosas, gananciosas, odientas, preconceituosas, suspeitosas e agressivas, muitas vezes, ferem e deixam marcas mais profundas.

É comum ouvirmos as pessoas dizerem: “Este é um mundo cruel, e, se a gente quer sobreviver, também tem de ser cruel”. Então, vamos continuar a educar para o ódio. Para afastar e, quem sabe, eliminar os que são “diferentes”. Sim, é isso que estamos fazendo. Estamos todos esperando que os outros mudem primeiro. Tudo que fazemos é condicionado por motivações egoístas: “Que vantagem eu levo nisso?”. Claro que eu sei que muitas pessoas estão buscando outros caminhos, mas de alguma forma estamos sendo coniventes com essa visão que ganha força no mundo. O conservadorismo está vencendo. Por que temos medo de avançar na garantia dos direitos humanos? Podemos pensar em vários motivos, políticos, sociais, econômicos, culturais, mas quero entrar mais profundamente na esfera emocional, na forma como lidamos com nossos sentimentos, principalmente, a raiva, desde a infância.

Num seminário em sua casa, em 1945, Wilhelm Reich declarou que a personalidade neurótica só se desenvolve quando a capacidade de uma criança de expressar raiva por um insulto à sua personalidade é bloqueada. Ele ressaltou que, quando o ato de ir em busca do prazer é frustrado, ocorre uma retração do impulso, criando uma perda de integridade no corpo. Essa integridade pode ser restaurada apenas através da mobilização da energia agressiva e sua expressão como raiva. Isso restabeleceria os limites naturais do organismo e sua capacidade de ir em busca do novo.

O médico Alexander Lowen, discípulo de Reich e autor da Terapia Bioenergética, afirma que se um indivíduo é incapaz de ficar com raiva, torna-se trancado numa posição de medo. Segundo ele, as duas emoções são antitéticas: quando se está com raiva, não se está com medo, e vice-versa. “Quando uma pessoa é muito medrosa, pode-se presumir que tem em sua personalidade um potencial equivalente de raiva reprimida. Expressar a raiva alivia o medo, assim como chorar alivia a tristeza. Na maioria dos casos, o medo é igualmente negado e reprimido, com isso a pessoa fica imobilizada ou morta.”

No livro Alegria, a entrega ao corpo e à vida, Lowen faz uma distinção entre raiva, ira e fúria. Na sua visão, a raiva é uma emoção restauradora ou protetora. Já a ira é uma ação destrutiva. Tem a intenção de machucar, de realmente quebrar alguém ou alguma coisa. Também é cega, e o ataque geralmente é contra uma pessoa ou criança inocente, impotente. A ira também é explosiva, o que significa que não pode ser controlada depois de irromper. Pode-se conter a raiva, mas não a ira. “A ira se desenvolve quando uma pessoa sente que seu poder foi contrariado ou frustrado. Uma criança que resiste insistentemente à ordem de um genitor pode lança-lo numa ira, cuja intenção é quebrar a resistência do filho, obrigando-o a submeter-se. Quando uma criança não faz o que o genitor manda, confronta-o com seu próprio sentimento de impotência, decorrente do fato de ter sido obrigado a submeter-se quando era criança, e foi incapaz de expressar sua própria raiva por medo. Essa raiva reprimida agora torna-se ira e é projetada sobre outra pessoa de quem ele não sente medo”, explica.

Uma raiva mais intensa do que a ira, é a fúria. “Estou furioso” expressa um sentimento de raiva extremo, simbolizado pelo furacão ou tornado, que destrói tudo em seu caminho. Como defesa contra a atuação de um impulso assassino, vem uma reação catatônica. “Essa qualidade congelada é o lado físico do ódio e só pode ser transformado pelo calor, especificamente, o calor da raiva. A ira, em oposição à raiva, é fria. Um indivíduo pode sentir o calor de sua raiva subir à sua cabeça à medida que a excitação move-se para cima. Ele vai ficar de cabeça quente devido ao aumento de sangue em sua cabeça, o que também pode fazê-lo literalmente ‘enxergar vermelho’. A raiva é uma força de vida positiva que tem fortes propriedades curativas. Em uma ocasião, quando havia vivenciado essa raiva, ela melhorou uma dor ciática que me incomodava a meses”, relata Lowen.

A forma como a sociedade lida com a raiva é muito contraditória. O ódio é alimentado, mas a raiva é reprimida, pois é moralmente errada. A maioria dos pais reprime energicamente um filho com raiva. Lowen acredita que isso é o mais lastimável, pois a criança que tem medo de expressar sua raiva dos pais torna-se um adulto frustrado. A raiva reprimida não desaparece. As crianças processarão o impulso proibido contra crianças menores, machucando-as deliberadamente. Ou, quando essa criança tornasse adulta, ela atuará contra seus próprios filhos, que são indefesos. “Pode-se pensar que punir uma criança por sua expressão de raiva seja uma maneira de ensiná-la a comportar-se socialmente, mas o efeito disso é anular o espírito da criança e torná-la submissa à autoridade. A criança de fato precisa aprender os códigos de comportamento social, mas isso deve ser feito de tal modo que a sua personalidade não seja prejudicada. As crianças cuja capacidade de expressar raiva não á abalada não se tornam adultos enraivecidos. Sua raiva geralmente é apropriada à situação, pois não é abastecida por conflitos não resolvidos e injúrias do passado.”

Lowen acredita que pesa sobre as pessoas esquentadas ou que perdem as estribeiras uma grande soma de raiva reprimida que está próxima da superfície e, portanto, é facilmente provocada. A raiva descarregada através da provocação pouco adianta para resolver o conflito subjacente, que é o medo de expressar os próprios sentimentos assassinos contra o genitor ou figura de autoridade que feriu a integridade da criança. Esse conflito é conservado e guardado na tensão do alto das costas e dos ombros, e só pode ser resolvido quando a raiva for direcionada contra a pessoa responsável pelo trauma. Contudo, ela não é dirigida contra essa pessoa, pois a injúria é antiga. O local apropriado para essa descarga é a situação terapêutica.

“A raiva, embora relacionada com o passado, decorre diretamente da existência de tensões musculares crônicas que prendem o organismo, reduzindo sua liberdade de movimento. A raiva é a reação natural à perda de liberdade. Isso significa que qualquer tensão muscular crônica no corpo está associada à raiva. É evidente que, se a pessoa não sente a tensão, não percebe raiva nenhuma. Interpreta as limitações de movimento e a perda de liberdade como normais, assim como um escravo poderia reconhecer a condição de sua escravidão sem raiva, posto que admitiu sua perda de liberdade.”

Somente quando recuperarmos a liberdade e a graça do nosso corpo, poderemos amar verdadeiramente e, aí sim, quem sabe, transformar o mundo. Mas, pra isso, é preciso parar de nos entorpecermos com remédios, alimentos cancerígenos, virtualidades e negação de nossas emoções, entre outras drogas. Quando assisti Blade Runner, de Ridley Scott, ainda na década de 1980, fiquei impressionada com a projeção sombria de uma sociedade dominada por uma minoria high-tech que relega à lata de lixo da história o restante da população. Será que assim caminha a humanidade ou ainda há tempo de nos resgatarmos e projetarmos comunitariamente o futuro?





Ego, o eu que se fixa

 "Compreender a natureza do ego e seu modo de funcionamento é

de uma importância vital se desejarmos nos libertar do sofrimento."

~Matthieu Ricard


por Milene C. Siqueira

Ego é uma palavra de origem latina que significa "eu". É um termo principalmente Psicanalítico, "freudiano", para o centro consciente. É tanto o que media, o que decide entre id (instintos, prazer imediato) e superego (valores morais, limites, censura), quanto o que integra essas duas instâncias. Um ego dito forte, pela psicanálise, seria um melhor equilíbrio entre id e superego - ou seja, uma boa administração do ego entre desejos e realidade.

O ego vai sendo formado pela interação dos cuidadores (em geral, a mãe) e do ambiente, constituindo aos poucos - junto a tudo que vai sendo rechaçado (sombra/conceito junguiano) - uma persona. O ego é basicamente o ego do outro refletido em nós. E que continua pela vida sendo reforçado nas relações, e só é minimizado (ou expandido na consciência) quando pode ser observado, movendo-se no eixo do ponto fixo.

Nas filosofias e religiões vamos ouvir as mais diversas opiniões sobre a palavra ego, ou referências similares como eu, eu pessoal, eu inferior, eu menor, eu falso. E também vilão, inimigo, demônio, etc. E vai desde a recomendação para eliminação, dissolução, anulação até a integração, transcendência.

Mas como anular, eliminar ou transcender o que nem reconhecemos?
Aliás, quem teria interesse em eliminar o ego que não o próprio ego?
Matar, eliminar e mesmo lutar contra o ego não são condições possíveis. E até se diz que não dá para matar aquilo que nunca de fato nasceu.

Integrar e transcender são palavras mais adequadas ao tratamento do ego. Porém, não há integração e transcendência sem reconhecer, sem investigar a existência de um eu que não é "encontrável", permanente, mas sim transitório e interdependente.

O ego é uma estrutura importante, sem ele não teríamos como e nem para o que observar. E não o teríamos como facilitador da expansão da consciência. Porque é também através do ego, como centro da consciência, aquele que é capaz de elaborar os conteúdos do inconsciente - no ambiente analítico - através de recursos como a fala, escrita, arte e meditação (analítica principalmente). Sem o instrumento que é o ego, também não estaríamos aqui lendo e discernindo.

O nosso problema com o ego é a exagerada identificação ao eu, que ativa mecanismos de defesa (projeção, racionalização, fantasia, etc). É quando estamos servindo ao ego, ao invés dele nos servir.

E paradoxalmente, embora o ego tema "morrer", ele está também na busca da sua ausência.
Poder ser espaço - ou buscar apoio para - é observar a composição das crenças estruturais e poder sair do jogo de ganha e perde, das comparações, do julgamento, do egoísmo/autocentramento, da cobiça, inveja, do sofrimento, da separação, e da constante luta interna entre o querer (desejo) x o poder (realizar).


"Como dois pássaros dourados pousados no mesmo galho,
infinitamente amigos, o ego e o Eu habitam o mesmo corpo.
O primeiro ingere os frutos doces e azedos da árvore da vida;
o segundo tudo vê em seu distanciamento."

~Mundaka Upanishad


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Neuroprocessamentos

Processamento, reprocessamento, reconsolidação de memórias são sinônimos para técnicas como EMDR, Brainspotting, TRG, AIM/Insidelic, Hakomi, PRI, EFT, SE (somatic experience), etc.

Cada uma delas tem suas diferenças! Mas o objetivo é neuromodular, é priorizar a autocura do nosso cérebro, do nosso corpo. Agem no sistema subcortical.

Traumas:

Um trauma inclui algum nível de congelamento, ou seja, quando não podemos completar o processo de entrar, atravessar e sair da "imobilidade".



Três Cérebros


Maldita a mente que sobe até as nuvens
na busca de reis míticos e só de coisas místicas,
coisas místicas
clamam pela alma que não encara
o corpo como um igual
e eu nunca aprendi a tocar realmente
o chão, embaixo, embaixo onde as iguanas sentem.

- Iguana Song, por Judy Mayham


Em nossa exploração do trauma aprendemos sobre as energias primordiais que se encontram no núcleo reptiliano de nosso cérebro. Não somos répteis, mas sem acesso claro à nossa herança repitiliana e mamífera, não conseguimos ser plenamente humanos. A plenitude de nossa humanidade está na capacidade de integrar as funções de nosso cérebro trino.
Percebemos que para resolver o trauma precisamos aprender a nos mover fluidamente entre o instinto, a emoção e o pensamento racional. Quando essas três fontes estão em harmonia, comunicando sensação, sentimento e cognição, nosso organismo funciona como deveria.
Ao aprender a identificar e contatar as sensações corporais, começamos a sondar nossas raízes instintivas reptilianas. Em si mesmos, os instintos são apenas reações. Contudo, quando essas reações são integradas e expandidas por nosso sensível cérebro mamífero que sente e por nossas capacidades cognitivas, de forma organizada, experienciamos a plenitude de nossa herança evolutiva.
É importante entender que as partes mais primitivas de nosso cérebro não são exclusivamente orientadas para a sobrevivência (do mesmo modo que o nosso cérebro moderno não é exclusivamente cognitivo). Elas carregam informações vitais a respeito de quem somos. Os instintos não nos dizem apenas quando lutar, fugir ou congelar; dizem-nos que pertencemos a esse lugar. O senso de "eu sou eu" é instintivo. Nosso cérebro mamífero amplia esse senso para "nós somos nós" - dizendo que pertencemos juntos a este lugar. Nosso cérebro humano acrescenta um senso de reflexão e de conexão além do mundo material.
Se não tivermos uma clara conexão com nossos instintos e sentimentos, não poderemos sentir nossa conexão e sensação de pertencer a esta terra, a uma família ou a qualquer outra coisa.
Aqui estão as raízes do trauma. A desconexão de nossa sensopercepção de pertencer faz com que nossas emoções flutuem num vácuo de solidão. Ela faz com que nossa mente racional crie fantasias baseadas na desconexão e não na conexão. Essas fantasias nos levam a competir, guerrear, desconfiar dos outros, e sabotam nosso respeito natural pela vida. Se não sentirmos nossa conexão com todas as coisas, então é mais fácil destruir ou ignorar essas coisas. Os seres humanos são naturalmente cooperativos e amorosos. Gostamos de trabalhar juntos. Entretanto, sem o cérebro plenamente integrado, não podemos nos reconhecer quanto a isto.
No processo de cura do trauma, integramos nosso cérebro trino. A transformação que ocorre quando fazemos isso cumpre o nosso destino evolutivo. Tornamo-nos completamente animais humanos, capazes da totalidade de nossas habilidades naturais. Somos guerreiros ferozes, incentivadores suaves, e tudo aquilo que fica entre esses dois pólos.


Epílogo do livro O Despertar do Tigre - Curando o Trauma de Peter A. Levine